A voz dos trabalhadores deve ser protagonista nas discussões do tabaco
Éder Rodrigues, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo e Alimentação de Santa Cruz do Sul e Região (Stifa)
A ida em comitiva à COP-11, em Genebra, marcou um ponto de virada para a representação dos trabalhadores da indústria do tabaco. Mesmo com limitações de acesso, vivemos uma semana de intensa articulação institucional, com reuniões viabilizadas pela Embaixada do Brasil que garantiram espaço para nossa visão sobre o setor produtivo. Foi a prova de que o caminho passa pela interlocução diplomática e pelo diálogo técnico. Como ouvimos nos corredores em Genebra, “não queremos confronto, queremos ser ouvidos com responsabilidade”. Esta frase resume o espírito da nossa participação. O trabalhador não pede favor, pede respeito à realidade que vive todos os dias.
O que trouxemos de Genebra não é apenas uma avaliação do evento, mas um recado direto, de que há maturidade e preparo para participar das mesas de negociação. A cadeia produtiva não é um recorte estatístico e não pode ser reduzida a números que ignoram seus efeitos sociais e econômicos. Durante o evento ficou evidente que quando falta transparência, falta também democracia no debate. Para os trabalhadores, o silêncio imposto pode se tornar o maior risco. Estamos dispostos a mostrar que existe conteúdo técnico e compromisso social para tratar o tema de forma responsável. Encerramos esta jornada com um sentimento de gratidão à nossa grande delegação, em especial aos parlamentares que, em muitas oportunidades, chancelaram a presença dos trabalhadores nos espaços institucionais.
O próximo passo dessa caminhada pode ser dado já em 2026, na 114ª Sessão da Conferência Internacional do Trabalho, organizada pela Organização Internacional do Trabalho, em Genebra. Será uma oportunidade histórica para aproximar o tema do tabaco da pauta laboral internacional. A indústria precisa ser vista também pelo prisma do trabalho digno, da geração de renda e dos direitos sociais. O setor não pode ser excluído desse debate, assim como o debate não pode excluir quem vive do setor. Estar presente na conferência significará levar o trabalhador para o centro das discussões que tratam da relação entre trabalho, saúde e proteção social.
E é olhando para esta caminhada que projetamos o que virá na COP-12, aprovada para ocorrer na Armênia, em 2027. Teremos outro país, outro contexto e talvez outro grau de abertura. Mas o princípio seguirá o mesmo. Não queremos observar, queremos participar. O apoio institucional da diplomacia brasileira precisa ser mantido e fortalecido, garantindo canais oficiais e permanentes de troca de informações. Os trabalhadores da indústria estão assumindo, com legitimidade, um protagonismo que lhes é de direito neste processo, por meio da atuação do Sindicato e da Federação, que representa todas as entidades laborais. Juntos, seguimos lado a lado mantendo a unidade e a representatividade de nossos trabalhadores.
Se existe um caminho possível, ele nasce da escuta e da construção coletiva. É por isso que reafirmamos nosso compromisso com o diálogo e com a clareza nas decisões. O setor não se sustenta à base de imposições, mas por meio da responsabilidade compartilhada. Se há desafios, é exatamente por isso que não podemos ficar em silêncio. Porque só quem vive o trabalho é capaz de mostrar onde existe caminho. Aquilo que defendemos é simples, reside no debate qualificado, na informação compartilhada e nas políticas que considerem quem vive da indústria e quem sustenta seu desenvolvimento. Com respeito, com ciência e com presença. Porque o trabalho não pode ser silenciado.