O trabalho precisa fazer parte da vida, não ocupar toda ela
Éder Rodrigues, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Fumo e Alimentação de Santa Cruz do Sul e Região (Stifa)
A discussão sobre o fim da escala 6×1 representa muito mais do que uma mudança na organização das jornadas de trabalho. Estamos diante de uma oportunidade de repensar a relação entre emprego, qualidade de vida e desenvolvimento econômico. O trabalho é essencial para a dignidade humana, mas não pode ocupar todo o espaço da vida de uma pessoa. É preciso garantir que homens e mulheres tenham tempo para descansar, conviver com suas famílias, cuidar da saúde e exercer plenamente sua cidadania.
A aprovação da proposta pelo Senado Federal representa um passo importante nesse debate. Entretanto, mais do que celebrar uma mudança na legislação, precisamos compreender seus efeitos sobre a vida de milhões de trabalhadores. Durante décadas, os trabalhadores contribuíram para o crescimento das empresas, o avanço da tecnologia e o aumento da produtividade. É justo que essa evolução também se traduza em melhores condições de trabalho e mais qualidade de vida.
Defender a redução da jornada não significa desconhecer os desafios enfrentados pelo setor produtivo. Sabemos que as empresas precisam manter suas atividades, preservar empregos e garantir competitividade. Por isso, entendemos que a transição deve ser construída com responsabilidade, planejamento e diálogo. As negociações coletivas e a participação dos sindicatos serão fundamentais para encontrar soluções adequadas às diferentes realidades, sempre com a preservação dos salários e dos direitos conquistados.
Também precisamos reconhecer que o descanso é uma questão de saúde. Jornadas prolongadas, quando associadas ao desgaste físico e emocional, comprometem o bem-estar e podem prejudicar o desempenho profissional. Um trabalhador valorizado, saudável e respeitado tem melhores condições de contribuir para os resultados da empresa. Não existe desenvolvimento verdadeiramente sustentável quando o crescimento econômico acontece à custa da qualidade de vida das pessoas.
A mudança, contudo, não será imediata, mas tende a ser progressiva e estar concluída em um pouco mais de um ano. Ao lado do fim da escala 6×1 existe o redutor de horas, sendo que passados dois meses da promulgação, ou seja, ainda em dezembro de 2026, entrará em vigor, já com a redução de 44 para 42 horas e que depois de 12 meses será de 42 para 40 horas, então a transição efetiva será em 14 meses.
O movimento sindical tem a responsabilidade de defender avanços, mas também de contribuir para que eles sejam efetivos e duradouros. Não se trata de estabelecer uma disputa entre trabalhadores e empregadores, e sim de reconhecer que ambos são fundamentais para uma economia forte. O equilíbrio nas relações de trabalho precisa ser construído com respeito, sensibilidade e compromisso coletivo.
Defendemos que o futuro do trabalho deve ser mais humano. Reduzir a jornada, preservar a remuneração e ampliar o tempo de descanso são objetivos que merecem ser tratados com seriedade. Afinal, o verdadeiro progresso não pode ser medido apenas pelo que produzimos, mas também pela qualidade de vida que conseguimos proporcionar às pessoas que tornam essa produção possível.


